ENTREVISTA: “O Amor Mata Mais Que o Cigarro”

Natural de Boticas, a jovem escritora Beatriz Pires tem vindo a conquistar leitores com a sua escrita intensa e emocional. No livro O Amor Mata Mais que o Cigarro, aborda temas atuais e sensíveis como a saúde mental, os relacionamentos tóxicos e a ansiedade, numa história que já está a marcar muitos jovens leitores. Estivemos à conversa com a autora botiquense para conhecer melhor o seu percurso, as inspirações por detrás da obra e os projetos que guarda para o futuro.

Como é que nasceu a ideia de O Amor Mata Mais que o Cigarro?

A ideia do meu livro surgiu de um misto de emoções e de uma grande falta de comunicação em expressar o que sentia. A minha criatividade também foi uma das chaves para a história começar a fluir de forma instantânea.

 

Porque escolheste um título tão forte?

O título não foi uma escolha, este apareceu de forma natural na altura que eu estava a escrever um diálogo entre a Margarida Rodrigues e o Lourenço Almeida, eles estão a trocar argumentos entre a escolha de fumar e o conceito do amor.

 

Houve alguma personagem que te custou mais escrever? A Margarida e o Lourenço foram inspirados em pessoas reais?

O personagem mais desafiante foi sem dúvida o Benjamim, o pai do Lourenço. Este adulto vai trazer frieza e crueldade para o seu filho pelo que viveu no seu passado com o seu pai violento. O meu maior desafio como escritora foi no fundo esconder nas suas camadas uma tentativa de fugir à sua sexualidade.

A Margarida e o Lourenço têm pedaços de toda a gente que passaram na minha vida, no entanto nenhuma personagem foi inspirada em uma pessoa em específico.

 

Qual era a principal mensagem que querias transmitir aos leitores?

A principal mensagem aos leitores é não abdicarem de um sonho, por mais que este, pareça algo longínquo e inalcançável. Com resiliência e dedicação tudo é possível.

 

O livro aborda ansiedade, dependências e relações tóxicas. Foi difícil escrever sobre isso?

A partir do momento em que se vive e se observa estes tópicos, passar para o papel ou computador torna-se fácil. Todavia tentei descrever de forma intensa sem retirar o peso para que seja algo verdadeiro que os leitores se possam identificar. 


Achas que os jovens ainda têm dificuldade em falar sobre saúde mental?

Em relação à saúde mental sinto que é um assunto presente na sociedade. O maior problema na minha opinião é a falta de atenção dos pais no que toca aos sentimentos e emoções dos seus filhos, o que leva os adolescentes a esconder e retrair as suas mágoas. Às vezes nos pequenos atos os filhos estão a pedir ajuda e os adultos estão a desvalorizar por completo.

 

Tiveste receio da reação das pessoas aos temas mais pesados? Que importância achas que a literatura tem na sensibilização para estes assuntos?

O meu único receio foi que os leitores sentissem que eu estava a minimizar aspetos do seu sofrimento. A literatura influência a questionar e a refletir sobre estes assuntos, por essa razão eu acho importantíssimo abordarmos cada vez mais estes tópicos.

 

Quando percebeste que querias escrever?

Quando percebi que eu não sabia comunicar o que sentia, comecei a escrever sem parar, tenho cerca de 20 diários. A vertente das peças de teatro esteve presente desde os meus 10 anos e aos 14 anos desafiei-me a escrever o meu primeiro romance.

 

Como é o teu processo de escrita? Planeias tudo ou deixas a história fluir? Houve momentos em que pensaste desistir?

O meu processo de escrita é muito incomum, a história e as personagens estão todas na minha mente, eu não funciono muito bem com cadernos e anotações. Em novos projetos estou sem linha de tempo e foi algo bastante desafiante.

Para ser honesta, o pensamento de desistir nunca apareceu. Ao longo do processo houve medos e hesitações, contudo a vontade de ir até ao fim com este projeto nunca me deixou recuar neste sonho.

 

Que autores ou livros te inspiram?

A minha escrita começou num verão em Leiria e eu nessa altura estava a ler um romance da Helena Magalhães “Raparigas como nós” este livro fez despertar o meu interesse e a possibilidade de os meus livros serem mais do que um simples rascunho. A ideia de publicar um livro foi ganhando vida. O que me inspira em geral é o que me rodeia e o que me faz sentir viva.

 

Qual foi a mensagem de um leitor que mais te marcou? Esperavas que o livro tivesse tanta atenção?

A mensagem que mais me marcou foi quando um leitor relatou a semelhança da relação que a Margarida tinha com a sua mãe Ana. O meu leitor expressou o quanto doloroso foi ver refletido a sua vivência nessas minhas personagens.

Jamais eu contava com esta adesão ao meu livro, eu sempre tive confiança no meu trabalho, mas nunca me passou pela cabeça que houvesse tanta gente a procurar e a ler o meu livro.

 

O que sentes quando alguém diz que se identificou com a história?

Eu sinto que o meu dever como autora foi cumprido.

 

Se pudesses conversar com uma das tuas personagens, qual escolhias?

Sem dúvidas queria conversar com o Benjamim e perceber a sua  complexidade.

 

Café, silêncio ou música para escrever?

Cappuccino e música de preferência com fones.

 

O que gostavas que os leitores levassem consigo depois de fechar o livro?     

Ao terminarem o meu livro queria que os leitores levassem o sentimento de pertença e de compaixão pelo sofrimento do outro.

 

A conversa com Beatriz Pires mostrou não só o talento de uma jovem autora natural de Boticas, mas também a sensibilidade e autenticidade com que encara temas que marcam a realidade de muitos jovens. Entre a escrita, as emoções e os desafios retratados no livro, fica a certeza de que O Amor Mata Mais que o Cigarro é uma obra que dificilmente deixa o leitor indiferente.

Fica também o exemplo de que os sonhos podem nascer em qualquer terra quando há dedicação e paixão pelo que se faz.

 

Mariana Carvalhais Araújo


26/05/2026

Cultura