Baldios de Covas do Barroso avançam de novo para tribunal para travar exploração de lítio em Boticas

A Comunidade Local dos Baldios de Covas do Barroso avançou com uma providência cautelar no Tribunal Administrativo e Fiscal de Mirandela para suspender a segunda servidão administrativa do projeto da Mina do Barroso, em Covas do Barroso, no concelho de Boticas, levado a cabo pela Savannah Resources.

A ação judicial surge na sequência da servidão administrativa atribuída este mês à Savannah Resources, que permite à empresa aceder a terrenos privados e baldios para trabalhos de sondagem e geotecnia, numa área de cerca de 228 hectares em Covas do Barroso e Romainho.

A providência cautelar “pretende impedir o avanço de uma servidão que é desproporcionada, mal fundamentada e gravemente lesiva dos direitos dos compartes, dos terrenos comunitários, dos recursos hídricos, da biodiversidade e do modo de vida agro-silvo-pastoril de Covas do Barroso”, referem os Baldios de Covas do Barroso numa nota enviada.

Segundo os compartes, a comunidade “vê nesta servidão mais um abuso de autoridade imposto sobre terrenos baldios e privados, contra a vontade da população local”. Os Baldios de Covas do Barroso, denunciam “a dimensão desproporcionada da nova servidão, que prevê a ocupação de cerca de 217 hectares de zona baldia, quase metade dos quais (102,2 hectares) estão fora da área de concessão do projeto, e onde a Savannah Resources pretende instalar 51 plataformas de sondagem e 194 poços geotécnicos”, referem.

Esta é a segunda vez que os Baldios de Covas do Barroso avançam para servidão administrativa. A primeira servidão “incluiu trabalhos executados fora da área concessionada, restrições à circulação dos residentes nos baldios e a presença de segurança privada na aldeia, criando um clima de vigilância e intimidação sobre a população”, recordam.

 “Nós sabemos que nas cidades baldio quer dizer terreno abandonado. Mas aqui não é assim. Baldio quer dizer terra do povo, que não é nem do Estado nem privada. É da comunidade. E não está vazia. O nosso sustento depende dele. Eu, por exemplo, tenho lá centenas de colmeias. E há quem use o baldio para pastoreio, recolha de mato e pesca. A servidão administrativa tira-nos o acesso ao baldio. É um ataque ao nosso modo de vida”, diz Carlos Gonçalves, comparte e membro da Direção do Conselho Diretivo dos Baldios, citado em comunicado.

Esta comunidade local garante que continuará a recorrer a todos os meios legais para travar o projeto mineiro.

Na terça-feira, a associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB) acusou a Savannah Resources de incumprir a Declaração de Impacte Ambiental (DIA). A associação denunciou trabalhos de desmatação em terrenos abrangidos pela servidão administrativa fora do período permitido, mas a empresa garante estar a cumprir “integralmente” as obrigações ambientais aplicáveis.

A mina do Barroso obteve uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) condicionada em 2023, e a Savannah prevê iniciar a produção em 2028. O projeto continua a ser contestado por várias associações, população, ambientalistas e autarcas.

Sara Esteves

Foto: DR


27/05/2026

Sociedade